segunda-feira, 10 de novembro de 2008


O REI DA COELÂNDIA

No meio da floresta havia um reino muito bem organizado. Era o reino de Coelândia. As casas eram tocas bem feitas, limpas e abrigavam, cada uma, uma família numerosa de coelhos. Eles viviam em harmonia. Os coelhos machos trabalhavam na lavoura plantando cenoura e verduras para o sustento da comunidade. As coelhas cuidavam da casa, dos filhos e do estoque de alimentos. Na época da colheita o trabalho dobrava para os coelhos e, muitas vezes as coelhas, depois de alimentar os filhotes, iam dar uma ajuda para agilizar o trabalho.

O rei da Coelândia era um coelho grande de pêlo branco, olhos vermelhos e muito bondoso. Seu nome era Floco de Neve. A justiça era o seu forte. Ele não explorava os seus súditos com altos impostos, nem taxa disso ou daquilo, por isso era muito querido. Havia paz e prosperidade no seu reino. Na festa da Páscoa os seus vassalos se reuniam, preparavam uma mesa com muita comida e convidavam o rei para comemorar com eles. Como era viúvo e sem filhos, ele comparecia, com toda a sua corte, e confraternizava com todos os coelhos. Os coelhinhos adoravam o rei porque ele contava histórias, dava presentes e participava das brincadeiras. Depois de terminada a ceia, o monarca partia para o seu castelo, a toca mais bonita, construído num pequeno morro, para se recolher a sua solidão.

Naquela última páscoa, depois de arrumarem tudo, os coelhos fizeram uma reunião. O general que comandava o exército disse:

- Precisamos encontrar uma esposa para o nosso rei. Não é justo que ele viva tão só.

Todos aplaudiram e aprovaram a idéia. Uma coelha muita sábia perguntou ao general onde poderiam buscar uma esposa se todas as coelhas do reino já eram casadas e as solteiras ainda estavam na fase da infância. Foi aí que um coelho cinzento, com óculos na ponta do nariz, disse:

- E se fôssemos procurar em outro reino? Talvez encontrássemos a coelha perfeita para o rei Floco de Neve.

- Tens razão, amigo! Vamos formar uma comissão e partir para o reino de Cenourinha. Vamos falar com o rei de lá. Ninguém deve contar nada ao rei porque será uma surpresa. – arrematou o general.

Fizeram os preparativos para a viagem. Avaliaram os perigos que iam correr porque Cenourinha ficava muito longe. No dia seguinte eles partiram. No primeiro dia de viagem encontraram uma fuinha que avisou:

- Cuidado com os lobos. Eles costumam caçar a noite e como já está escurecendo, acho bom que se recolham.

- Obrigado, amiga! Você pode me indicar um lugar onde possamos passar a noite? – perguntou o general.

- Olhe, - disse a fuinha – naquela subida tem uma toca abandonada. Lá morava uma cascavel de rabo de chocalho, ela se mudou no mês passado. Vocês podem dormir lá esta noite. Assim fez o general e seus comandados.

No dia seguinte, descansados, continuaram a viagem. Depois de dois dias de andança, os coelhos encontram um rio caudaloso pela frente. O general deu a ordem:

- Parem! E todos pararam diante daquela imensidão de água. Os soldados queriam saber do general qual era a sua estratégia para atravessar o rio, já que o reino de Cenourinha ficava do outro lado. Enquanto eles confabulavam surgiu, na margem do rio, uma enorme tartaruga de água doce. Ela olhou para aquele grupo de coelhos e perguntou:

- Que fazem aqui?

- Bem, nós precisamos chegar ao reino de Cenourinha. Estamos procurando uma princesa para casar com o nosso rei. – respondeu um tenente, antecipando-se ao general.

- Talvez eu possa ajudar. – disse a tartaruga Tipiti – Posso levar de dois em dois para o outro lado.

- Isso é maravilhoso! – gritou o cabo jogando o seu quepe para o alto.

E assim foi feito. Dois coelhos por vez nas costas da tartaruga e antes de escurecer já estava do outro lado o batalhão militar de Coelândia. A tartaruga desejou boa sorte a todos com a recomendação de que eles escolhessem a melhor princesa para o rei Floco de Neve, lembrando-lhes que nem toda princesa é uma princesa de caráter e de modos. A realeza está na alma. Continuaram a caminhada. Algumas horas depois eles avistaram os portões de Cenourinha. Apertaram o passo. Chegaram. O general bateu no pesado portão e esperou. Lentamente o portão foi se abrindo e um soldado, vestido com uma farda cor-de-cenoura, perguntou:

- Quem és tu? De onde vens?

- Eu sou o general Coelino Folha Verde, comandante das tropas do rei Floco de Neve, amado monarca das terras de Coelândia. Desejo muito falar com o rei de Cenourinha. Podes levar-me à presença dele?

O soldado tocou a corneta e, da porta do palácio, saiu um escolta de dez coelhos marrons e brancos. Aproximaram-se. O soldado disse ao chefe da escolta:

- Acompanhem o general Coelino para uma audiência com nosso rei.

Assim foi feito. Diante do rei de Cenourinha, um coelho já um tanto velho, o general contou a história e perguntou se havia possibilidade de ser escolhida uma princesa para reinar ao lado de Floco de Neve. O rei Dentinho II, esse era o seu nome, ordenou que fosse feito um concurso para escolher a melhor e a mais bonita nobre para casar com o rei Floco de Neve, porque ele não tinha filhas, só filhos. Foram três semanas de muito trabalho e nada. As candidatas não preenchiam os requisitos estipulados pelo general Coelino. A tropa já estava se preparando para voltar de mãos abanando, quando o general, em passeio pelas terras distantes de Cenourinha, avistou, saindo de uma toca simplesinha, uma formosa coelha, branca como a neve, olhos lindos e saltos elegantes. Então ele perguntou ao guia que o acompanhava:

- Quem é aquela criatura tão formosa?

- É a filha do coelho Joca, fornecedor das melhores cenouras que este reino já viu. É ele quem abastece o palácio real.

- Quero falar com ele. – exigiu o general.

A linda coelha havia se afastado da casa quando o general bateu e Joca abriu a porta, arregalando os olhos.

- Quem são vocês? – perguntou assustado.

- Não tenha medo! – disse o general sorrindo – eu sou do reino de Coelândia e estamos procurando uma princesa para casar com o nosso rei que vive muito só.

- Minha filha não é uma princesa e eu sou apenas um lavrador.

- Não quer chamar a sua filha para que nós perguntemos a ela se não quer se casar com um rei? – insistiu o general.

- Ela já está longe. Hoje é dia de prestar assistência às famílias mais pobres de Cenourinha. Ela é professora e graças a ela nesta região não existe um só coelho que seja analfabeto. – disse o pai com orgulho.

- Esta é a coelha ideal para o nosso rei. – disse Coelino aos coelhos do seu batalhão.

E acompanharam o coelho Joca. Andaram bem umas duas horas e chegaram a um local muito bonito. Tinha cachoeira, um gramado bem verdinho, mais para o fundo uma toca cheiinha de cenoura para o almoço de todos e no centro do gramado ficava a sala de aula. Os coelhinhos, sentados, prestavam toda a atenção aos ensinamentos da professora. Quando a linda coelha viu seu pai perguntou:

- Papai, que fazes aqui? Quem são estes senhores?

- Filha, o general quer falar com você...

E a coelha Suzeni ouviu a proposta. Ao final da conversa ela pediu um tempo para pensar. O tempo foi dado. Dois dias, disse o general. No terceiro dia Suzeni já tinha a resposta. Aceitaria casar com Floco de Neve se ele ajudasse o rei de Cenourinha no desenvolvimento do reino, já que Coelândia era muito mais rica. O general disse sim, mas ficou preocupado. E se o rei não gostasse de Suzeni, como ficaria a promessa? Impossível não gostar de uma criatura como ela pensava o general durante a viagem de volta a Coelândia.

Chegaram numa tarde quente. Todos os moradores de Coelândia estavam a espera. Quando viram Suzeni a exclamação foi uma só:

- Meu Deus, como é linda!

O general explicou ao povo que Suzeni não era uma princesa de origem, mas tinha uma alma de rainha e, por isso, era digna de se casar com o rei. Agora era só marcar o dia para apresentar a coelha ao rei. Ela ficou hospedada na casa do general. Enquanto eles decidiam, Suzeni saiu para conhecer o reino. Olhava tudo admirada. Como era bonito. Tudo bem cuidado. Estava pensando na diferença entre os dois reinos quando, quase atropelando, deu de cara com aquele coelho bonito, não muito jovem, mas também não era velho.

- Desculpe. - disse ela envergonhada.

- Não foi nada. Eu nunca vi você por aqui. – disse ele.

- Eu não sou daqui. Eu sou de outra terra, bem longe. Moro com meu pai que é lavrador.

E conversaram horas a fio. Suzeni gostou demais daquele coelho gentil, educado, parecia um rei. O mesmo aconteceu com o coelho que não era nada mais nada menos que o rei Floco de Neve. Naquela noite o rei não dormiu direito. A coelhinha não saía da sua cabeça. Assim que o dia amanheceu ele saiu para ver se a encontrava. Desta vez ela estava à beira do lago admirando a paisagem. Ele chegou, disse bom dia, e ficaram conversando por longo tempo. Enquanto isso o general preparava o ambiente para comunicar ao rei que eles tinham arranjado uma noiva para ele. Tomou coragem e foi à presença do monarca. Estava temeroso da reação.

- Majestade, os coelhos de Coelândia não podem mais vê-lo tão solitário, e por minha iniciativa, nós fomos buscar uma noiva para o senhor.

- Ora, eu não quero essa noiva, acho que já escolhi alguém do meu agrado. Ela é linda, distinta, tem bom coração, embora seja estrangeira e não pertença à realeza é uma verdadeira rainha.

Foi um balde de água fria nas pretensões do general. Que coelha era essa? Ficou ressabiado, mesmo assim perguntou ao rei se não gostaria de ver a tal coelha, quem sabe ele não mudaria de idéia. E o rei, meio contrariado, aceitou. Foi marcada uma recepção no palácio para a apresentação. No dia marcado o salão se encheu de nobres todos curiosos para conhecer a futura rainha. O general e sua esposa preparavam Suzeni para conhecer o rei. Ela pensava naquele coelho bonito de quem ela não sabia o nome, mas no coração ela tinha certeza que iria amá-lo para sempre. Mais por educação ela não se negou a conhecer o rei de Coelândia. Chegaram ao palácio. Floco de Neve, sentado no seu rico trono, esperava. De repente soou a trombeta. Entraram o general, a esposa e Suzeni. O rei arregalou os olhos, o coração acelerou. Então era ela. Mas que feliz coincidência. Para Suzeni foi a mesma coisa. O espanto, a felicidade de saber que aquele era o rei para quem estava destinada. Como ele estava bonito no seu trono com aquela capa vermelha enfeitada com arminho branco. O general, segurando Suzeni pela mão, aproximou-se e disse:

- Majestade, esta é Suzeni a jovem da qual eu lhe falei.

- Eu já a conhecia, só não sabia o seu nome. – disse Floco de Neve interrompendo o general.

- Mas... – gaguejou o general.

- Eu a conheci antes de saber da aventura de vocês e sou muito grato a você Coelino e a este povo maravilhoso por se preocuparem comigo.

Floco de Neve pediu Suzeni em casamento e ela aceitou para a felicidade de todos. Quinze dias depois foi realizado o casamento sob as bênçãos da corte e da população de Coelândia. O acontecimento foi tão grandioso que, por muitos anos, foi comentário entre os bichos da floresta.

domingo, 9 de novembro de 2008


O SONHO DA BONECA


Lili, rósea boneca,
Sonha ver toda manhã
Cair flocos de neve
Do céu do seu armário.

Sonha ver a prateleira,
A rua onde ela mora,
Coberta de neve durinha
Pra deslizar com patins

Imaginando um bailado
De fantásticas piruetas
Nos braços do boneco
Da prateleira de cima.

Sonha Lili, sonha,
Pois tu és fruto do sonho
De todas as menininhas
De embalarem um dia
Uma boneca rosadinha,
Que não se vende em lojinhas
Nem dorme em armários
Só em braços maternos.

sábado, 8 de novembro de 2008


A BONECA ZAROLHA

Maria Hilda de J. Alão.

Era uma vez, numa loja de brinquedos, uma boneca que nasceu zarolha. Ficava exposta na mais alta prateleira, nenhuma menina a queria. Vivia triste. Via as outras bonecas serem escolhidas e levadas para casa em lindos pacotes enfeitados.

Um dia, uma boneca de cabelos louros disse:

- Sabe por que ninguém quer você? Por causa dos seus olhos. Eles são feios demais. Veja os meus – disse a convencida – são azuis, perfeitos, lindos de morrer. Logo serei levada por uma menina.

A pobre zarolhinha chorou. Queria tanto ser escolhida, levada por alguém para fazer a felicidade de uma menina. Mas, não saía da prateleira.

Um dia, já estava perto do Natal, o dono da loja resolveu colocar a boneca zarolha na vitrine repleta de outras bonecas. A loja encheu-se de crianças. Todos os brinquedos foram vendidos. Das bonecas sobraram duas: a pobrezinha da zarolha e a convencida de olhos azuis.

O dono da loja pensou:

- A outra tem chance de ser vendida, mas a zarolha não tem jeito, vou jogá-la no lixo. Ninguém quer esta boneca.

Enquanto pensava no destino que daria à boneca, reparou num homem que parara diante da vitrine, empurrando uma cadeira de rodas onde estava sentada uma pequena menina. Ela apontava para a vitrine. O homem entrou, empurrando a cadeira e pediu:

- Posso ver aquela boneca que está na vitrine?

- Pois não, senhor. Qual das duas?

- A que está à esquerda.

Admirou-se, porém não disse nada. Abriu a vitrine e entregou a zarolha nas mãos do homem que a passou para a menina. Esta, emocionada disse:

- Papai, ela é tão linda! Veja a graça dos cabelos, os braços roliços... as mãozinhas... Veja os pés... são tão mimosos! O vestido é uma beleza! A carinha é rosada, perfeita. Compra ela pra mim, papai.

E o homem comprou, pagou e saiu empurrando a cadeira onde estava sentada a criança, levando um belo pacote no colo e, dentro dele, feliz estava a boneca zarolha.

Moral: Os olhos da alma são capazes de ver a beleza que os olhos da cara não vêem.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008



AS DUAS VAQUINHAS

Maria Hilda de J. Alão.

Uma camponesa tinha um galinheiro com muitas galinhas de boa raça, algumas cabras e carneiros, um boi e duas lindas vaquinhas. Bem tratadas, as vaquinhas davam muito leite o que provocava a inveja do seu vizinho, um homem de maus bofes. Um dia, ao se levantar pela manhã, a camponesa não viu as vaquinhas no pasto.
Ficou desesperada. Saiu procurando por todos os lugares e não as encontrou. Já estava sem esperança de achar os animais quando topou com o moleque Quincas que lhe disse:

- As vacas estão com o Bastião, o homem sem coração.

E como ele sabia disso? Perguntou a camponesa com os olhos brilhando de alegria. É que na última invasão de Quincas ao pomar do Bastião, para apanhar as goiabas maduras ele viu, escondidas no fundo do curral, as duas vacas. A mulher foi falar com Bastião.
Pediu a devolução das vacas e o homem, grosseiramente, lhe disse que para devolver as vacas ela teria de “untar” a sua mão com o que ela escondia no armário da cozinha. A pobre mulher, analfabeta, não sabia o significado de “untar”, então ela foi perguntar ao juiz que lhe disse:

- Untar é passar substância gordurosa em algo ou alguém...

A camponesa voltou para sua casa e mandou avisar ao Bastião que ela iria, no dia seguinte, buscar as duas vacas. Assim fez. Chegou trazendo um caldeirão bem tampado. O homem foi logo perguntando, de olho no caldeirão:

- Vai “untar” a minha mão com aquilo que você guarda no armário da cozinha?

Ela não respondeu. Aproximou-se. O homem estendeu a mão. Ela tirou a tampa do caldeirão, meteu a mão e sacou um punhado de banha passando na mão do espertalhão dizendo:

- Pronto, já untei a sua mão! Agora quero as minhas vacas.

- Nada disso! Quando eu disse “untar” eu quis dizer “pagar” com aquilo que você guarda no armário da cozinha. – disse nervoso o Bastião.

- Acontece que “pagar” é com dinheiro, e dinheiro eu guardo no colchão e não no armário da cozinha. Eu cumpri a minha parte direitinho: “untei” a sua mão conforme o seu pedido, agora você cumpra a sua devolvendo as minhas vacas ou eu levo o caso ao conhecimento do senhor juiz.
Vendo a besteira que fizera, Bastião, que temia a severidade do juiz, devolveu as duas vaquinhas e aprendeu que aquele que se julga muito esperto é sempre o mais tolo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008


O PINGO D’ÁGUA

Maria Hilda de J. Alão.

Todos os dias a vovó arrumava a cozinha: lavava a louça, guardava no armário, secava a pia e depois ia fazer o seu tricozinho. Naquele dia seria a mesma coisa se não fosse um fato: ela não fechou a torneira da pia direito.

A cozinha estava silenciosa. As crianças estavam na escola. Na sala o som da televisão indicava que a vovó fazia seu tricô assistindo a novela da tarde tendo deitado aos seus pés um pachorrento gato angorá.

Enquanto isso acontecia, lá na pia de mármore da cozinha, um pingo d’água vinha, vagarosamente, lá do fundo do cano.

Ele chegou à boca da torneira e ficou pendurado olhando o ambiente. Paredes revestidas com azulejos claros, a geladeira branca com bilhetes das crianças presos à porta com imãs, uma mesa espaçosa com suas seis cadeiras, armários e o fogão ao lado da pia. Curioso ele pensava:

- Como é diferente aqui fora. Tudo é claro e bonito. Acho que vou descer para conhecer melhor este lugar.

Mas quando ele olhou para baixo e viu a altura, tremeu de medo. Se caísse acabaria esborrachado e seria tragado para aquele enorme buraco que era o ralo da pia. E agora? Ele já estava cai-não-cai... A pia, com pena do pobre pingo, sugeriu:

- Por que não pede ajuda a sua mamãe torneira?

O pingo aceitou o conselho e pediu:
- Mamãe, não me deixe cair... eu estou com tanto medo...

E a torneira, cuidadosa como todas as mamães, fez: Glub – engolindo o curioso pingo d’água evitando o acidente.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008


Todas as crianças crescem, Peter Pan não! Ele mora na Terra do Nunca.

Um dia junto com a Fada Sininho, foi visitar seus amigos Wendy, João e Miguel.

Peter levou-os para conhecer a Terra do Nunca. Com a mágica de Sininho eles saíram voando. Avistaram o barco pirata, a aldeia dos índios e a morada dos meninos perdidos.

O Capitão Gancho viu Peter Pan e seus amigos voando e resolveu atacá-los;

Peter Pan salvou Wendy antes que ela caísse no chão.

Os meninos perdidos moravam dentro de uma árvore oca. Wendy contou lindas estórias para eles. Ela gostou dos meninos.

Um dia o Capitão Gancho raptou a princesa dos índios, mas Peter Pan apareceu para libertá-la. O Capitão Gancho fugiu e o Crocodilo Tic Tac quase o enguliu, mas ele escapou.

Mas o Capitão Gancho não desistiu. Desta vez capturou os meninos perdidos, levou-os para o barco pirata, de lá eles seriam jogados no mar.

Mas Peter Pan veio salvar os seus amigos. Lutou com Gancho e o derrubou.

De volta ao lar, Wendy pediu que Peter Pan ficasse com eles, mas ele disse que não e preferiu a Terra do Nunca, assim ele nunca cresceria e poderia brincar com todas as crianças sempre.

sábado, 18 de outubro de 2008


O Coelhinho Joca

"Era uma vez quatro coelhinhos chamados: Bolinha, Mimoso, Algodãozinho e Joca. Eles moravam com sua mãezinha, embaixo de um grande pinheiro. Dona Coelha, precisando um dia sair para fazer compras, chamou-os e disse:

- Escutem, queridos, mamãe vai sair. Se vocês quiserem, podem dar uma voltinha, mas, por favor, não entrem na horta do Sr. Tinoco. Seu pai teve um acidente lá e nunca mais voltou para casa. Tenham juízo, filhotes, eu não me demoro.

Dona Coelha apanhou a sombrinha, a cesta de compra e foi à padaria. Comprou cinco bolinhos com passas e um pão de forma. Bolinha, Mimoso e Algodãozinho, que eram muito ajuizados, foram colher amoras. Joca, porém, que era muito desobediente, passou por debaixo da cerca e foi à horta do Sr. Tinoco. Lá chegando, comeu alfaces, cenouras e rabanetes, até não poder mais. Sentou-se para descansar um pouco. Exatamente ali, perto do canteiro dos repolhos, estava o Sr. Tinoco. Assim que avistou o coelhinho, correu ao seu encalço, de ancinho na mão.

Joca ficou muito assustado; corria para todos oslados e não conseguia acertar a saída. Perdeu um dos sapatos no meio dos repolhos, e o outro, perto das batatas. Cada vez ele corria mais. De repente, ficou preso, pelo botão do casaco, numa rede que protegia as uvas. Começou a chorar alto. Uns pardais muito bonzinhos, que voavam por ali, vieram consolá-lo.

Entretanto, o Sr. Tinoco não tinha desistido de pegá-lo. Ali veio ter, com uma enorme peneira na mão, pretendendo com ela prender o pobre bichinho. Nesse instante, porém, Joca deu um arranco e conseguiu desprender-se. No entanto, ficou sem o casaco e caiu em cima da caixa de ferramentas. Levantou-se depressa, e escondeu-se dentro de uma lata grande que viu à sua frente. A lata estava cheia de água e Joca estava muito suado; por isso, começou a sentir arrepios de frio e pôs-se a espirrar. O Sr. Tinoco, que o havia perdido de vista, descobriu o seu esconderijo e correu para a lata. O coelhinho, porém, foi mais ligeiro; pulou fora da lata e ocultou-se atrás de uns vasos de plantas.

O Sr. Tinoco já estava cansado de tanto correr à procura do coelhinho, de maneira que resolveu voltar para casa. Joca, quando percebeu que o seu perseguidor o deixara em paz, sentou-se para descansar. Estava quase sem respiração e tremia da cabeça aos pés. Além disso, não tinha a menor idéia de como sair dali.

Enquanto pensava na situação, apareceu um rato quecarregava, na boca, alimento para os seus filhinhos. Joca perguntou-lhe onde ficava a saída, mas ele não lhe respondeu, apenas sacudiu a cabeça. Então o coitadinho resolveu ir andando para ver se descobria alguma coisa.

Atravessou o jardim e chegou a um tanque onde o Sr. Tinoco costumava encher as latas de água. Ali estava sentado um gatinho, apreciando os peixinhos dourados que havia no tanque. Joca, a princípio, teve vontade de dirigir-lhe a palavra, mas pensou melhor e foi andando. Seu primo, o coelhinho Benjamim, sempre lhe contava histórias perigosas sobre gatos...

Um pouco adiante encontrou uma carrocinha. Subiu nela e olhou à volta. Lá adiante estava o seu inimigo, o Sr. Tinoco, cuidando de um canteiro. Do lado oposto, ficava o portão. Que alívio! Muito de mansinho, sem fazer barulho, foi ele se arrastando, até que se viu, são e salvo, perto do pinheiro onde ficava sua casa. Estava tão cansado que se deitou ali mesmo e fechou os olhos.

Dona Coelha estava preparando o jantar. Quando o viu ali fora, assim, abatido, ficou imaginando o que lhe teria acontecido. Ficou, porém, muito zangada quando viu que ele havia perdido os sapatos e o casaco. Levou-o, no colo, para a cama e notou que ele estava febril.

À hora do jantar, Bolinha, Mimoso e Algodãozinho foram para a mesa, comeram bolinhos com morangos e tomaram leite quentinho. Joca ficou na cama e tomou chá de limão.

No dia seguinte, ainda se sentia mal. Estava tão arrependido, que prometeu à mamãe nunca mais desobedecer-lhe e ser tão comportado quanto seus outros irmãos."

sexta-feira, 17 de outubro de 2008










O COELHO E O CACHORRO

Eram dois vizinhos. O primeiro vizinho comprou um coelhinho para os filhos. Os filhos do outro vizinho pediram um bicho para o pai. O homem comprou um pastor alemão. Papo de vizinho:
a.. Mas ele vai comer o meu coelho. b.. De jeito nenhum. Imagina ! O meu pastor é filhote. Vão crescer juntos, pegar amizade. Entendo de bicho. Problema nenhum. E parece que o dono do cachorro tinha razão. Juntos cresceram e amigos ficaram. Era normal ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa.
As crianças, felizes. Eis que o dono do coelho foi passar o final de semana na praia com a família e o coelho ficou sozinho.
Isso na sexta-feira. No domingo, de tardinha, o dono do cachorro e a família tomavam um lanche, quando entra o pastor alemão na cozinha.
Pasmo, trazia o coelho entre os dentes, todo imundo, arrebentado, sujo de terra e, é claro, morto. Quase mataram o cachorro.
a.. O vizinho estava certo. E agora ! ? b.. E agora eu é que quero ver ! A primeira providência foi bater no cachorro, escorraçar o animal, para ver se ele aprendia um mínimo de civilidade e boa vizinhança. Claro, só podia dar nisso.
Mais algumas horas e os vizinhos iam chegar. E agora ? Todos se olhavam. O cachorro rosnando lá fora, lambendo as pancadas.
a.. Já pensaram como vão ficar as crianças ? b.. Cala a boca ! Não se sabe exatamente de quem foi a idéia, mas era infalível.
a.. Vamos dar um banho no coelho, deixar ele bem limpinho, depois a gente seca com o secador da sua mãe e o colocamos na casinha dele no quintal. Como o coelho não estava muito estraçalhado, assim fizeram. Até perfume colocaram no falecido. Ficou lindo, parecia vivo, diziam as crianças.
E lá foi colocado, com as perninhas cruzadas, como convém a um coelho cardíaco. Umas três horas depois eles ouvem a vizinhança chegar. Notam o alarido e os gritos das crianças. Descobriram !
Não deram cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta.
Branco, lívido, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma.
a.. O que foi ? Que cara é essa ? b.. O coelho... O coelho... c.. O que tem o coelho ? d.. Morreu ! Todos:
a.. Morreu ? Ainda hoje à tarde parecia tão bem... b.. Morreu na Sexta-feira ! c.. Na Sexta ? d.. Foi. Antes de a gente viajar as crianças enterraram ele no fundo do quintal ! A história termina aqui. O que aconteceu depois não importa. Nem ninguém sabe. Mas o personagem que mais cativa nesta história toda, o protagonista da história, é o cachorro.
Imagine o pobre do cachorro que, desde sexta-feira, procurava em vão pelo amigo de infância, o coelho. Depois de muito farejar descobre o corpo, morto, enterrado. O que faz ele ?
Provavelmente com o coração partido, desenterra o pobrezinho e vai mostrar para os seus donos. Provavelmente estivesse até chorando, quando começou a levar pancada de tudo quanto é lado.
O cachorro é o herói. O bandido é o dono do cachorro. O ser humano. Sim, nós mesmos, que não pensamos duas vezes. Para nós o cachorro é o irracional, o assassino confesso.
E o homem continua achando que um banho, um secador de cabelos e um perfume disfarçam a hipocrisia, o animal desconfiado que tem dentro de nós.
Julgamos os outros pela aparência, mesmo que tenhamos que deixar esta aparência como melhor nos convier. Maquiada.
Coitado do cachorro. Coitado do dono do cachorro.
Coitado de nós, animais racionais.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008
















O Mito da Criação da Noite

Antigamente não havia noite. Era sempre dia. O Sol brilhava esquentando a Terra. A Lua e as estrelas eram como o Sol. Tudo era luz e claridade na aldeia e sua floresta. Os homens caçavam sem cessar e as mulheres trabalhavam sem descanso, pois era sempre dia, noite não havia. O Sol fazia seu percurso até o poente para então retornar pelo caminho inverso de volta ao nascente. Mauá controlava o Sol, a Lua e as estrelas, não permitindo que ninguém deles se aproximasse. Certa vez um homem quis saber como o Sol funcionava. Esperou que Mauá saísse para caçar e aproximou-se do Sol. Ao tocá-lo, o Sol quebrou, o mesmo acontecendo com a Lua e as estrelas. E a noite surgiu engolindo tudo. Os homens que caçavam na mata ficaram perdidos na imensidão do escuro. As mulheres mal conseguiam encontrar suas redes dentro da maloca. Crianças e idosos lamentavam-se do fundo da noite sem luz. Mauá voltou para consertar o Sol. Ao ver o homem que o havia quebrado, Mauá lançou-se sobre ele e o atirou longe. Quando caiu, o homem transformou-se no macaquinho mão-de-ouro, escuro como a noite e com as mãos douradas como o Sol que havia tocado. Não foi possível consertar o Sol para que funcionasse como antes. Ele caminhava para o poente mas não conseguia retornar, sumindo no horizonte e deixando a Terra na escuridão. Mauá então fez com que a Lua e as estrelas surgissem na ausência do Sol para iluminar um pouco a noite. E é assim até hoje. Mauá é um ser criador que cuida dos elementos da Natureza; é o guardião da Vida.
Lenda dos índios Walmiri-atroari, Amazonas e Roraima

sexta-feira, 3 de outubro de 2008




Cachinhos de Ouro

Era uma vez... uma menina chamada Cachinhos de Ouro. Ela gostava de passear pela floresta nas manhãs de primavera. Numa dessas manhãs, ela ia andando, andando, andando, quando avistou lá longe uma casinha. Curiosa, apressou o passo e logo, logo chegou bem perto.
Cachinhos de Ouro ficou encantada com a formosura da casa.
Mas nunca imaginaria que ali moravam o Senhor Urso, a Dona Ursa e o filhote do casal, o Ursinho.
Cachinhos de Ouro, ao ver que a casa estava fechada, espiou pela janela e viu que não havia ninguém. Deu uma volta ao redor da casa e nada, ninguém... Então, ela teve a certeza de que os donos daquela casa tinham saído.
Mas ela não queria voltar pra casa sem ver o que havia dentro daquela casinha. E com um forte empurrão, conseguiu abrir a porta e entrou. Na sala havia uma mesa com três pratros cheios de sopa. A menina, que estava com muita fome, sentou-se e rapidinho tomou a sopa.
Em seguida, ela sentou na cadeira do senhor Urso; depois, na cadeira do Dona Ursa e, por fim, na cadeirinha do Ursinho, que era a mais bonitinha e muito gostosa de se sentar. Logo que ela sentou, ela começou a se espreguiçar. Ah! Ah! Foi quando a cadeirinha... ploft... quebrou, e a menina foi ao chão.
Daí, Cachinhos de Ouro foi até o quarto e lá viu três camas. Deitou na cama do senhor Urso, depois na cama de Dona Ursa. E a caminha do Ursinho, assim como a cadeirinha, parecia a mais gostosa de todas pra se dormir. Não parou para pensar. Deitou-se nela e acabou dormindo suavemente.
A família Urso, que despreocupada passeava pela floresta, resolveu voltar. Ao chegarem, logo perceberam que alguém tinha tomado a sopa toda. Aí o Ursinho exclamou:

- Alguém tomou a minha sopa!

Viram depois que alguém tinha sentado em todas as cadeiras da casa. E imediatamente o Ursinho berrou:

- Minha cadeirinha está quebrada!

Os três olharam muito espantados e foram juntos para o quarto pra ver se alguma coisa tinha acontecido ali também. E o Ursinho gritou logo:

- Tem alguém dormindo na minha caminha!

Com os gritos do Ursinho, Cachinhos de Ouro acordou muito assustada... porque se viu frente a frente com toda a família Urso. Então, ela pulou da cama e, muito envergonhada, pediu desculpas e saiu correndo pra casa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O príncipe sapo


O PRÍNCIPE SAPO



Era uma vez um rei que não tinha filhos e tinha muita paixão por isso, e a mulher disse que Deus lhe desse um filho mesmo que fosse um sapo. Houve de ter um filhinho como um sapo; depois botaram as folhas a ver se havia quem o queria criar, mas ninguém se animava a vir. O rei, vendo que o sopito do filho não havia quem o queria criar, anunciou que, se houvesse alguma mulher que o quisesse criar, lho dava em casamento e lhe dava o reino. Nisto aí apareceu uma rapariga e disse: «Se Vossa Real Majestade me dá o filho, eu animo-me a vi-lo criar.» O rei disse que sim e a rapariga veio criar o sopito. Depois passou algum tempo e ele foi crescendo e ela lavava-o e esmerava-o como se ele fosse uma criança. Foi indo e ele tinha uns olhos muito bonitos e falava, e a rapariga dizia: «Os olhos dele e a fala não são de sapo.» Já estava grande, passaram-se anos e ela, uma noite, teve um sonho em que lhe diziam ao ouvido que o sapo era gente, mas pela grande heresia que a mãe disse que estava formado em sapo, que se o rei lho desse para ela casar com ele que casasse e quando fosse na primeira noite que se fosse deitar, que ele tinha sete peles e ela levasse sete saias e quando ele dissesse: «Tira uma saia», lhe dissesse ela: «Tira uma pele.» Assim foi e casou o sapo com a rapariga e na noite do casamento ele pediu-lhe que tirasse ela as saias e ela foi-lhe pedindo que tirasse as peles e depois de ele as tirar ficou um homem. Ao outro dia ele tornou a vestir as peles e ficou outra vez sapo. E ela disse-lhe: «Tu para que vestes as peles? Assim és tão bonito e vais ficar sapo.» «Assim me é preciso, cala-te.» Ela, assim que se pôs a pé, foi contar tudo à rainha, e o rei mais a rainha disseram-lhe: «Quando hoje te deitares, diz-lhe o mesmo e depois de ele tirar as peles e estar a dormir, deixa a porta do quarto aberta que nós queremos ir vê-lo.» Foram-no ver e viram que ele era homem. Ao outro dia o príncipe tornou a vestir as peles e vai o pai disse-lhe: «Tu, porque vestes as peles e queres ser feio?» «Eu quero ser sapo, porque o meu pai tem mão interior e, se eu fico bonito, impõem a minha mulher.» O rei disse-lhe: «Eu não a impunha, mas queria que tu ficasses bonito.» Depois, como viram que ele não queria deixar de ser sapo, pediram a ela que, assim que ele adormecesse, lhes trouxesse as peles para eles as queimarem. Ela assim fez e eles botaram as peles ao fogo aceso. De manhã vai ele para vestir as peles e não as acha. «Que é das peles?» «Vieram aqui o teu pai e a tua mãe e levaram-nas.» «Mal hajas tu se lhas destes, mais quem te deu o conselho. Adeus. Se alguma vez me tornares a ver, dá-me um beijo na boca.»

A mulherzinha ficou mas o rei e a mulher, assim que viram que o filho faltou, puseram-na fora da porta. Ela, coitada, não tinha com que se tratar; o que era do rei lá ficou e ela estava muito pobrezinha. A todas as pessoas que via perguntava se tinham visto um homem assim e assim e lá lhe dava as notícias do príncipe. Vieram por onde ela estava uns cegos e ela fez-lhes a pergunta. Os moços dos cegos disseram-lhe: «Nós vimos no rio Jordão um homem e certamente era ele; estava botando fatias de pão para trás das costas e dizendo: «Pela alma de meu pai, pela alma de minha mãe, pela alma de minha mulher.» Ela disse-lhes: «Vocês quando tornam para essa banda?» «Nós para o fim do outro mês voltamos para lá; havemos de passar por esse rio.» A mulherzinha aprontou-se e foi com eles. Chegou lá e era o príncipe. Ela chegou ao pé dele e deu-lhe o beijo na boca como ele tinha dito e disse-lhe: «Ora vamos embora, que se acabou o nosso fado.» E foram para casa e foram muito felizes e tiveram muitos filhos.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008














Os Espelhos das Fadas Celestes

No palácio celeste, moram as fadas chinesas. Elas passam os dias tecendo nuvens. São elas que emprestam às nuvens formas de animais, de brinquedos e até de algodão-doce.
Mas não é divertido para elas. Todos os dias são iguais, lá no céu. Um dia duas fadinhas resolveram:
- Vamos conhecer a Terra? Partiremos em segredo. O Imperador, nosso pai, nunca permitiria essa viagem.
Desceram à Terra e escolheram duas velhinhas para proteger. Com o tempo, seus corpos perderam a transparência e as fadas chinesas passaram a ser confundidas com seres humanos. Conheceram crianças, trabalharam como atrizes e pintoras. Nem se lembravam da antiga vida no céu.
Só depois que as fadas já estavam na Terra havia cem anos foi que o Imperador descobriu a ausência delas. Isso porque no céu o tempo demora a passar. As outras fadas disseram ao pai celeste que suas irmãs tinham desaparecido havia apenas sete dias. Mesmo assim... o Imperador ficou furioso. Quando ele se aborrecia, os céus se turvavam. Cada grito que soltava se transformava imediatamente num raio luminoso. Cada gota de suor que brotava de sua testa se tornava uma horripilante tempestade.
Na Terra... as fadinhas, ao verem as chuvas torrenciais e ouvirem os trovões, lembraram-se da voz do pai.
- É preciso voltar - concluiu a mais velha - se não regressarmos, papai destruirá a Terra; nossos amigos sofrerão, traremos dor e danos àqueles que nos acolheram.
Tristes, as fadinhas se despediram de todas as crianças das quais tinham ficado amigas e subiram para o caminho do céu.
Sabiam que seria difícil retornar à Terra, pois de agora em diante o Imperador as vigiaria eternamente.
- Eu gostaria tanto de voltar a ver a Terra - disse a mais jovem.
- E eu, de oferecer um presente para as crianças... - acrescentou a mais velha.
Foi então que tiveram uma idéia maravilhosa: tiraram os espelhos mágicos das longas mangas de suas vestes, que era onde costumavam guardá-los e os lançaram na Terra. Os espelhos desceram tão rápido que os olhos humanos não foram capazes de vê-los rodopiando no ar. Quando caíram, se transformaram em dois lagos redondos, cintilantes e cristalinos. Suas águas eram doces e límpidas, refletindo perfeitamente as florestas, as colinas e o rosto das crianças.
E hoje sempre que uma criança nada nas águas desses lagos, sabe que recebe a proteção das fadas celestes, que continuam a tecer as brancas nuvens dos céus.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008


A Pequenina Luz Azul

Certa manhã, o sultão El-Khamir, disse ao prefeito:
- Esta noite avistei ao longe uma pequenina luz azul e desejo saber quem passou a noite a velar. Ordeno-lhe apurar a razão desta vigília.
- Obedeço à Vossa Majestade! Porém, é inútil esse inquérito, pois aquela luz provinha do oratório da minha casa! Eu e minha família passamos a noite pedindo a Deus pela saúde de Vossa Majestade!
- Obrigado meu bom amigo - sinceramente comovido acrescentou - saberei corresponder aos cuidados que lhe mereço.
O rei, então, chamou o grão-vizir Moallin.
- Resolvi recompensar com mil dinares de ouro o prefeito.
- Por Alá! É muito dinheiro! Que teria feito ele para merecer?
- Praticou uma ação nobre e sublime - e narrou o caso da luz.
- Permita-me ponderar, estais sendo iludido, posso provar, ele não tem família e só sabe orar nas Mesquitas, quando obrigado.
- Mas... E a luz azul, de onde vinha?
- Vejo-me obrigado a confessar, passei a noite cogitando a cerca dos graves problemas e das questões que Vossa Majestade deve resolver hoje! Juro pelo Alcorão que essa é a verdade!
- Grande e esforçado amigo! - jubiloso disse:
- Tereis uma recompensa digna de vossa dedicação!
O rei chamou o general Muhiddin e contou que estava resolvido a conceder o título de xeque de Lohéia ao grão-vizir Moallin. E o bom monarca, contou ao general a história da luz azul.
- Vós acreditastes nisso? Peço provar que ele mentiu como um infiel!
Mentira o prefeito, o grão-vizir! Como poderia, o rei, apurar a verdade? Modesto, o general confessou:
- Queria ocultar a verdade mas me vejo obrigado a revelar que aquela pequenina luz azul provinha de minha tenda - e o general não hesitou - com receio que os revoltosos atacassem a noite, acampei nas cercanias da cidade, para maior garantia da vida do rei.
Que heroísmo! O sultão não sabia como agradecer. E depois que o general saiu cogitou: "vou lhe conceder o título de príncipe e uma pensão anual de vinte mil dinares! Não... Merece muito mais... Salvou-me a vida.. A coroa... Como não chegasse a uma conclusão satisfatória consultou Ali-Effendi, seu velho mestre e conselheiro.
O sábio ponderou:
- Não deves acreditar no prefeito, nem no grão-vizir, nem no general. Creio que a tal luz provinha do farol de El-Basin.
O rei surpreso:
- Então era a luz do farol!
Naquela mesma noite, depois da última prece, o rei chegou à varanda para olhar o panorama da cidade, que dormia. Surpresa estranha: como todos já sabiam sobre as recompensas, a cidade estava extraordinariamente iluminada. Nunca se vira tanta luz azul! E o crédulo rei compreendeu então, que para cada súdito honesto e dedicado havia um milhão de mentirosos e bajuladores.

Malba Tahan